Sal rosa do Himalaia — o tempero mais hypado e menos justificado da cozinha

Eu tenho um potinho de sal rosa do Himalaia na minha bancada já deve ter uns três anos e sabe pra que ele serve? Decoração. É bonito, fica ao lado do moedor de pimenta, e de vez em quando alguém vem jantar aqui em casa e pergunta “é sal do Himalaia?” com aquele tom de quem acabou de descobrir trufa branca. 

Muitas pessoas mal sabem que esse tão hypado sal rosa do Himalaia é primo de segundo grau do sal de mesa mais banal que existe. Mas vamos com calma, te explico de forma bem contextualizada aqui os motivos disso.

O que é, afinal, esse sal cor-de-rosa?

Pra entender a fama do querido sal rosa do Himalaia, vale uma passada rápida pela origem dele. Ele é extraído de minas na região de Punjab, no Paquistão, não literalmente do Himalaia, mas perto o suficiente para o nome vender melhor (marketing geográfico é uma arte à parte, um dia a gente fala sobre isso). 

A formação aconteceu há centenas de milhões de anos, quando um mar antigo secou e deixou para trás depósitos de cloreto de sódio cristalizado, comprimidos sob camadas e camadas de rocha até virarem os cristaizinhos rosas.

A cor rosada, aliás,vem de traços de óxido de ferro e outros minerais presos no depósito ao longo desse processo geológico todo. É basicamente ferrugem em quantidade homeopática dando uma tonalidade ao cristal, e não é hate, tá? É só uma descrição honesta de como a natureza funciona. 

O hate na verdade começa quando esses traços minerais, que existem em quantidade irrisória, viram argumento central de venda, como se fossem o diferencial nutricional do produto.

A química não explicada no rótulo

Todo sal, seja ele o refinado de plástico transparente do supermercado ou o rosa em potinho artesanal, é majoritariamente cloreto de sódio. 

Basicamente, estamos falando de 95% a 98% de NaCl no sal rosa, contra algo em torno de 97% a 99% no sal refinado comum. A diferença entre eles, em termos de composição, é menor do que a diferença entre dois tipos de arroz branco de marcas diferentes.

Os tais “84 minerais” que aparecem em algumas embalagens existem, sim, mas em quantidades tão baixas que seriam irrelevantes numa análise nutricional séria. Estamos falando de miligramas, às vezes microgramas, de elementos como potássio, cálcio e magnésio. 

Para você ter uma ideia proporcional, é como dizer que uma pessoa é “rica em diamantes” porque tem uma partícula de carbono cristalizado grudada na sola do tênis rs. Tecnicamente verdade, mas praticamente irrelevante.

Onde o sal rosa do Himalaia realmente faz diferença

Agora, antes que você jogue o potinho fora, existe sim um lugar onde o sal rosa do Himalaia se justifica, e é puramente sensorial, não nutricional. 

Eu gosto muito de usar o sal rosa do Himalaia em cristais grandes, moído na hora, sobre carnes já finalizadas. Pode-se dizer que a textura crocante e o efeito visual do cristal rosado sobre um prato escuro têm valor gastronômico real. 

É a mesma lógica de finalizar um prato com flor de sal ou com sal maldon, o crunch e a apresentação importam mais do que na cozinha propriamente dita, onde ele se dissolve e vira exatamente o mesmo NaCl de sempre.

O modismo por trás do rosa

Essa onda do sal do Himalaia surfa numa tendência maior, a de tratar “natural” como sinônimo automático de “melhor” e “não processado” como sinônimo de “mais saudável”. 

É a mesma lógica que vende açúcar de coco como se fosse metabolicamente diferente do açúcar refinado (não é, a diferença calórica e glicêmica é irrisória) ou água de coco em garrafinha de vidro como se fosse elixir e não, essencialmente, água com um pouco de potássio.

O sal rosa do Himalaia entrou nesse pacote de “alimentos wellness com estética instagramável” e virou item obrigatório de cozinha de influenciador, ao lado do abacate esmagado com flor de sal por cima. O produto em si não é ruim, apenas o discurso em volta dele é que é, na melhor das hipóteses, exagerado.

Resumindo a ópera do sal rosa

Sal rosa do Himalaia não é picareta, não é golpe, não vai fazer mal a ninguém. Mas também não é o tempero milagroso, mais puro e mais saudável que o marketing de bem-estar insiste em vender. É sal. Um sal bonito, com uma origem geológica interessante de contar na mesa, ótimo para finalizar pratos pelo crocante e pela estética, e péssimo custo-benefício se a intenção for usá-lo no dia a dia da cozinha, no tempero de arroz, feijão, massa de pão ou água do macarrão.

Se você gosta do visual e tem dinheiro sobrando, compre, use no cristal grosso, finalize seus pratos com ele e aproveite o crunch. Agora, se alguém tentar te vender a ideia de que ele é “mais saudável” ou “nutricionalmente superior” ao sal comum, pode desconfiar

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