Air fryer: a invenção que já tinha 65 anos quando nasceu

Se você, assim como eu, comprou a sua air fryer achando que estava levando pra casa uma revolução de 2010, sinto dizer mas não estava. 

Curiosamente, a air fryer é uma versão menor, mais bonita e mais bem vendida de uma coisa que já existia desde 1945. Só que naquela época ninguém estava pensando em batata frita, estava pensando em como esquentar comida de avião sem virar borracha.

Essa é uma história muito curiosa e também muito “comum”, digamos assim, porque ela explica um padrão que se repete o tempo todo na indústria de eletrodomésticos: pegar uma tecnologia antiga, empacotar bonitinho, e vender como “inovação disruptiva”.

O avô esquecido da air fryer

Em 1945, um cara chamado William Maxson resolveu um problema bem específico, que era servir refeições quentes e decentes durante voos comerciais, numa época em que “comida de avião” já era sinônimo de decepção. 

A solução dele foi um forno de convecção, um aparelho que usava um ventilador pra circular ar quente ao redor da comida, cozinhando de forma mais rápida e uniforme do que um forno convencional.

Ele batizou o aparelho “Sky Plate”, pesava uns 16 quilos (35 libras, pra quem gosta de unidade imperial), rodava com motor de 120 volts e conseguia esquentar seis refeições simultaneamente em cerca de 15 minutos. Em 1949 Maxson patenteou ele.

Reparou no princípio do Sky Plate? Ventilador, ar quente circulando, cozimento rápido e uniforme sem imersão em óleo ou fogo direto. É literalmente a definição técnica de uma air fryer, só que setenta e cinco anos mais cedo e do tamanho de uma mala de viagem.

O Sky Plate tinha tudo para dar certo, mas esbarrou em alguns problemas difíceis de ignorar. Era caro, pesado e o forno original sofria com uma convecção mal calibrada, com o ar circulando em excesso, roubando a umidade da comida e transformando carnes suculentas em pedaços secos e duros. 

Sky Plates no forno de Maxson. Publicado originalmente no New York Times, 11 de abril de 1945.

O forno de convecção virou item de cozinha comum décadas antes da air fryer

Aqui a história fica ainda mais chata pra quem quer vender “invenção” porque o conceito não ficou parado esperando 2010. Em 1967, a empresa californiana Nordskog reengenharia o motor e o sistema de aquecimento do design original de Maxson, resolvendo boa parte dos problemas de ressecamento. No mesmo período, a Malleable Iron Range Company lançou o primeiro forno de convecção de tamanho residencial disponível para consumidores comuns.

Ou seja, o forno de convecção doméstico, o bisavô direto da air fryer, já estava na prateleira décadas antes de qualquer holandês pensar em miniaturizar isso pra fritar batata sem óleo.

Então o que a Philips realmente inventou?

Aqui é onde eu preciso ser justa, porque simplificar demais também é preguiça intelectual.

Fred van der Weij, engenheiro holandês, começou a desenvolver o que se tornaria a air fryer moderna por volta de 2005-2006, construindo um protótipo de cocção por ar quente com uma pá interna pra movimentar os alimentos. Um detalhe de engenharia que os fornos de convecção tradicionais não tinham. 

Quatro anos depois, ele levou o projeto pra Philips, que lançou o Airfryer comercialmente em 2010, na feira de eletrônicos IFA em Berlim, batizando a tecnologia de “Rapid Air”, patenteada como tal.

O mérito real de Van der Weij e da Philips não foi inventar “ar quente cozinha comida”, mas sim pegar um princípio de convecção que já rodava havia mais de sessenta anos em fornos de avião, cozinhas industriais e fornos domésticos grandes, e resolver o problema que ninguém tinha resolvido até então.

Eles encaixaram o produto numa caixa do tamanho de uma cafeteira, com controle de temperatura simples e uma cesta que qualquer pessoa sabe operar sem manual de engenharia.

Basicamente podemos dizer que foi uma miniaturização e design de produto. É claro que foi um trabalho de verdade, não estamos desmerecendo. Só não é o que o marketing vendeu. 

O marketing vendeu inicialmente a Air Fryer como “tecnologia revolucionária que elimina o óleo da fritura” como se fosse ciência de ponta nascida do zero em um laboratório da Philips, quando na real é a filha bem-vestida de um forno de avião dos anos 1940 que ninguém queria comprar.

Por que isso importa além da curiosidade histórica

Se você já usou forno de convecção, daqueles com a opção “ventilado” no painel, você já sabe, na prática, que a air fryer intensifica esse mesmo princípio em um volume menor, o que significa mais concentração de calor ao redor do alimento e tempos de cozimento mais curtos. Não é mágica, é geometria. Espaço pequeno + ar quente forçado = crosta mais rápida.

E isso também explica por que a air fryer erra tanto em porções grandes, pois ela foi otimizada pra volumes pequenos, igual o Sky Plate original foi otimizado pra bandejas individuais de avião, não pra alimentar uma família de cinco pessoas de uma vez. 

O problema de “ressecar a comida” que atormentou Maxson em 1945 também aparece, guardadas as proporções, quando você lota demais a cesta da sua air fryer atual e o ar para de circular direito.

Realmente nada se cria, tudo se copia?

Essa é uma curiosidade que se repete o tempo todo na indústria de eletrodomésticos. Setenta e cinco anos separam o Sky Plate de William Maxson do Airfryer da Philips, e o princípio físico no meio do caminho não mudou nem um pouco, e isso não é caso isolado.

O micro-ondas nasceu de um radar militar da Segunda Guerra, assim também como boa parte das fritadeiras elétricas modernas evoluiu de estruturas industriais que existiam décadas antes de virarem gadget doméstico. 

Quase sempre, o “novo” eletrodoméstico revolucionário é miniaturização e refinamento de algo que já rodava em outro contexto. 

Da próxima vez que um eletrodoméstico “revolucionário” aparecer na sua timeline, vale a curiosidade: será que essa ideia já não rodava, décadas atrás, em algum lugar bem diferente da sua cozinha?

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